sexta-feira, 24 de abril de 2015

A Era do Conteúdo Digital: novidades, vantagens e desafios

Graças aos novos formatos de mídia na internet, a produção de conteúdo digital se expandiu e continua se expandindo progressivamente. Mas, afinal, o que vem a ser conteúdo digital? É todo aquele conteúdo disponível em plataformas digitais, que tem por característica vantagens técnicas em relação ao conteúdo analógico, como: facilidade de produção, reprodução e manipulação. 

Num vídeo sobre obsolescência da educação, Manuell Castells cita um trabalho de um aluno publicado na Revista Science, no qual calculou que 97% da informação do planeta está hoje digitalizada e 80% dela se encontra na internet. As tais facilidades de reprodução digital rapidamente se tornaram um problema para a gestão de direitos autorais, justo que se consolidou como um modo muito mais fácil de gerar cópias, o que, na prática, acabou por favorecer o mercado de pirataria. 

A batalha dos artistas em receber direitos autorais pelas músicas disponibilizadas no Youtube está agora nas mãos da justiça brasileira. O Google está há 27 meses sem pagá-los. Em sua página no Facebook a cantora Mallu Magalhães desabafou: "Sou filha da internet e otimista por natureza. Mas tenho perdido a fé que de os gigantes finalmente demonstrem respeito e honestidade não só aos músicos como a todos os produtores de conteúdo. Não é nada justo que o veículo, que depende do conteúdo, seja o único remunerado do negócio".

A sede por conteúdos gratuitos está refletida na pesquisa Internet Pop, do Ibope Media, realizada no ano passado. Segundo a mesma, a maioria dos brasileiros consome apenas conteúdo digital de graça. Essa fatia corresponde a 75% de usuários de smartphones (três em cada quatro donos de aparelhos) que preferem usar apenas aplicativos gratuitos. Somente 14% deles acessam serviços pagos de vídeo, como o Netflix. Por conta disso, a gerente de Learning & Insights do Ipobe Media, Juliana Sawaia, alerta que desenvolvedores de aplicativos precisam pensar no valor agregado do produto. "Se este promete trazer uma resposta que um grande público espera, é possível cobrar algo em torno de dois dólares, por exemplo, mas tudo depende do produto", aponta ela. 

A emergência de dispositivos móveis, bem como o consequente surgimento de aplicativos móveis, fez expandir a produção de conteúdo em convergência. A distribuição de conteúdos em multiplataformas ainda se encontra numa fase de transição, com adequação destes às interfaces, mas pouca exploração dos potenciais dos sistemas móveis. Fazer os conteúdos irem além, cruzar outras mídias (crossmedia), é algo que está acontecendo gradualmente. Lançado há pouco tempo pelo Twitter, o aplicativo Periscope entra nessa perspectiva. Com ele é possível produzir vídeos de acontecimentos ao vivo e a transmissão se dá através do microblog. 

Como produtores de conteúdo, os jornais estão enfrentando desafios na convergência para estes formatos. Recentemente, o Google reformou o algoritmo de exibição de sites. Agora, além de ter design adequado, as páginas deverão ser otimizadas para carregar em smartphones. As que não se adaptarem a esse modelo não serão ranqueadas entre os primeiros resultados. Segundo o próprio Google, essa é uma resposta à tendência de uso dos dispositivos móveis em relação aos browsers. Para o jornalismo, o trabalho por trás de desenvolvimento SEO* é dispendioso, pois além de jornalistas e designers, agora são necessários programadores. Os jornalistas do agora e do futuro precisam se preparar. Para Raju Narisetti, vice-presidente sênior da News Corporations, é preciso também pensar em fazer as notícias chegarem ao leitor, já que com o advento das redes sociais, principalmente o Facebook, o público já não se empenha em buscar a notícia.

*Search Engine Optimization (SEO) é um conjunto de métodos que visam melhorar o posicionamento de suas páginas no mecanismo de busca e também técnicas capazes de alterar ou melhorar aspectos internos de um site.

Jornais baianos. Apenas A Tarde e Tribuna da Bahia estão otimizados para mobile.

O momento sociocultural é favorável ao mercado móvel e a publicidade já está atenta a esse nicho. Para continuar faturando com a produção de conteúdo, sites, jornais, revistas e outros veículos de comunicação apostaram na convergência para o meio digital. O paywall, por exemplo, é um sistema de ganho por assinatura baseado na oferta de conteúdos digitais restritos. Essa foi uma das formas encontradas de se diversificar a receita após a diminuição das tiragens impressas. A Folha de S. Paulo é um dos jornais que adotam paywall no Brasil, ela oferece um limite de acesso de até 20 páginas mensais. Essa alternativa de disponibilizar uma demonstração do conteúdo de forma gratuita se configura como uma estratégia para que o usuário deseje adquirir assinatura com maior limite. 

O conceito de mídia, incluindo as móveis, está cada vez mais complexo no contexto de inovação digital. Surge um novo sistema de comunicações em que se fala de cultura de participação. As narrativas estão cada dia mais democráticas, o que quer dizer que qualquer um que possua acesso à internet pode disseminar conteúdo através dos mais diversos canais. Inteligência coletiva, meus amigos. O mundo está conectado, eis a era digital. Um comercial no mínimo divertido produzido pela MTS anuncia esses novos tempos em que já "nascemos super conectados":

  

Fontes:
BARBOSA, Suzana. ; SILVA, Fernando Firmino da ; NOGUEIRA, Leila. . Análise da convergência de conteúdos em produtos jornalísticos com presença multiplataforma. Mídia e Cotidiano, v. v.2, p. 139-162, 2013.
Vídeo: Cultura da Convergência - Henry Jenkins
Vídeo: Free - O futuro é grátis (Chris Anderson) 

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Como os app's junto aos novos meios de comunicação interagem com a sociedade

Mc Luhan não viveu na época dos aplicativos de celular. Mas desde lá, questionava as mudanças culturais geradas pelos novos meios de comunicação. Em duas de suas teorias, podemos colocar os app's como exemplo. Vamos entender porque o termo "rede social" não é correto e o que liga a teoria da Convergência ao tema do blog. Isso tudo ocorrendo por meio da internet e das novas mídias. 

Novas mídias são, necessariamente, digitais. Ser digital é o que as difere das velhas (analógicas). O que muda no digital é sua forma de armazenar e transportar as informações; o analógico impregna a informação em um suporte físico para poder ser reproduzida, enquanto o digital transforma qualquer informação em um código binário, que utiliza apenas os números 0 e 1 para tudo, em diversas combinações. Por serem digitais, aplicativos são nova mídia. Quando digitalizamos algo, roubamos dele sua materialidade e o colocamos no ciberespaço.

"O ciberespaço é definido como um mundo virtual porque está presente em potência, é um espaço desterritorializante. Esse mundo não é palpável, mas existe de outra forma, outra realidade. Não podemos, sequer, afirmar que o ciberespaço está presente nos computadores, tampouco nas redes, afinal, onde fica o ciberespaço? Para onde vai todo esse “mundo” quando desligamos os nossos computadores? É esse caráter fluido do ciberespaço que o torna virtual", divaga Silvana Drumond Monteiro no seu artigo "O Ciberespaço: o termo, a definição e o conceito"

E se Luhan não previa o mundo permeado de aplicativos como hoje, não poderia imaginar que já estão em processo de produção as chamadas 'Tecnologia de Sexto Sentido' (TED), onde seremos capazes de interagir com imagens projetadas como se fosse uma tela de toque (repare na imagem abaixo). Para isso, são necessários: uma mini-câmera, um aplicativo com capacidade de processamento de imagens e sensores com funções diferentes para cada dedo. 

E se esse é considerado o futuro da tecnologia, o futuro dos aplicativos não fica atrás. Também chamados de 'Aplicativos de Sexto Sentido', esse app's do futuro tomariam decisões, sem nossa interferência, com base no contexto de cada usuário e seus padrões de comportamento. A identificação do perfil seria feita através dos modernos sensores e processadores já disponíveis nesses dispositivos. Por exemplo, ele poderá identificar se o usuário está em um ritmo que o fará chegar atrasado à algum compromisso. Emitirá, então, um alerta e o usuário decide se quer andar mais rápido ou não, enquanto o app avisa às pessoas do seu atraso por uma interface de voz.


Pravna Mistry é um estudante indiano do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e tem como projeto o "SixthSense", que podemos definir como sendo um computador com o qual acessamos as informações com gestos manuais. 

A famosa frase do teórico da comunicação: "O meio como extensão do homem" reflete bem a atual 'necessidade' que temos de andar sempre com o celular no bolso / mochila / mão. Um estudo realizado em 17 países mostrou que 38% das pessoas preferem esquecer a carteira ou a chave de casa do que o celular. Isso porque os aplicativos são a extensão da nossa memória*, nossas relações sociais** e também dos nossos sentidos de visão e audição***.
* Exemplo de aplicativos: Evernote, Google Agenda, ColorNote, etc. 
** Exemplo de aplicativos: Whatsapp, Facebook, Instagram, Twitter, etc. 
*** Exemplo de aplicativos: Museu do Louvre, Palco MP3, Instagram, etc. 

O filósofo traz, ainda, o conceito de Aldeia Global. Com a evolução das tecnologias de informação e comunicação, a ligação entre as pessoas romperia o espaço, fazendo com que ficássemos informados sobre o que está acontecendo 'do outro lado mundo'. Igual a uma pequena aldeia, onde todos se conhecem e qualquer acontecimento ganha uma dimensão global. 

Quando criou esse conceito, Luhan se referia, principalmente à televisão, mas podemos adaptá-lo atualmente e entender os aplicativos (principalmente, as redes sociais) como potenciadores dessa Aldeia, visto que estamos o tempo inteiro conectados através dos nosso celulares.


Nos anos 90, surge o termo Cocooning para designar uma maneira de viver longe da socialização. Hoje, o Telecocooning aponta novas tendências das pessoas se relacionarem, conviverem e consumirem de maneira encasulada, porém sem estarem, necessariamente, dentro de casa. Esse modo de vida se expande a maneira que os recursos tecnológicos (home theatres, DVDs, desktops, laptops, celulares) trazem o cinema, a comunicação interpessoal e as relações de trabalho para dentro de casa.

A antropóloga Mizuko Ito aponta o papel crescente que o celular vem assumindo entre a juventude japonesa. Ela relata casos de jovens casais que mantêm contato constante, o dia todo, graças ao acesso a diversas tecnologias móveis. Para Henry Jenkins (você vai entender mais sobre nestante), esse é um caso evidente de Telecocooning. Eles estão sempre juntos emocionalmente, mesmo não estando próximos fisicamente. Estão encasulados entre si, apesar de não estarem dentro de casa.



De acordo com a teoria dos meios como extensão do homem, o rádio e o telefone seriam extensões da nossa audição, enquanto a TV seria extensão da nossa visão (apesar de não estar representado, a TV também é extensão da nossa audição).

Ninguém tem apenas um aplicativo no celular. Até porque, cada um serve apenas para cumprir uma função específica e precisamos (e queremos, cada vez mais) realizar várias atividades ao mesmo tempo. Nossos celulares comportam, então, as mais diversas funções; algumas intrínsecas ao aparelho e outras que adquirimos quando baixamos nossos aplicativos. Objetos como rádio, calculadora, GPS e câmera fotográfica estão compactados num mesmo dispositivo. 


Henry Jenkins chama essa fusão de mídias como um dos fenômenos da Cultura da Convergência. A teoria tenta entender a nova relação do público, incentivado a procurar novas informações, com os meios de comunicação que, por sua vez, tendem a convergir para apenas um aparelho (entenda melhor nas imagens abaixo). A convergência altera a lógica pela qual a indústria midiática opera e pela qual os consumidores processam a notícia e entretenimento.

Essa é uma mutação cultural, por isso, não podemos entendê-la apenas pelo sentido da tecnologia. Para o autor, a convergência não ocorre por meio de aparelhos, mas dentro dos cérebros dos indivíduos e em suas interações sociais. As ilustrações abaixo foram retiradas do vídeo 5 Conceitos de Henry Jenkins. Vejam a relação de Jenkins com os aplicativos.


Convergência das mídias: as mídias atuais estão interagindo com as velhas de forma cada vez mais complexa, ao invés se substituí-las. Nesse processo une-se as múltiplas funções dentro dos mesmo aparelhos. O celular e seus aplicativos são uma poderosa demonstração dessa conversão.

Broadcasting / One to Many: apenas uma opção de produto (informação também é um produto) para ser consumido por usuários. Narrowcasting / Many to Many: várias opções de produtos de nicho, para contemplar as necessidades de pessoas diversas, lhes dando opções de escolha. A internet, é um exemplo de narrowcasting, contra o modelo de comunicação em massa do broadcasting.

Economia Afetiva: economia alimentada pela venda de objetos ligados a séries de TV, histórias em quadrinho, filmes, etc. O público são os fãs dessas obras. Não é uma novidade das novas tecnologias, mas vem se intensificando por causa delas. Veja o exemplo da loja online da banda O Teatro Mágico, que vende produtos com a temática da banda.

Narrativa Transmidiática: partes de um conteúdo espalhado em diversas mídias, de forma que a narrativa só se completa quando se passa por todas, como um quebra-cabeça. Pressupõe dos consumidores uma postura ativa, perseguindo os pedaços de informação e comparando suas observações com outros fãs. Esse tipo de narrativa ocorre desde a formação da cultura de massa, mas as novas tecnologias proliferam esse modelo. Podemos usar como exemplo o aplicativo de celular do filme Velozes e Furiosos 7 que faz parte das estratégias publicitários de lançamento do filme.
Spoilers: fãs que estão incessantemente em busca de novas notícias sobre seus programas favoritos, acrescentando ao que sabem, novas informações. Para Jenkins, ninguém sabe de tudo, mas pode trocar conhecimento com outras pessoas a fim de saberem mais (inteligência coletiva). Confira a lista de três aplicativos que permitem aos usuários ter todos os episódios de sua série favorita a disposição, podendo ver e rever quando quiser e comentar com outros fãs suas experiências.

Como vimos, a internet revolucionou a cultural mundial e a forma como nos relacionamos com os objetos e com o outro. Sendo assim, não podemos considerá-la apenas uma mídia (como rádio, TV e livro), "a internet é um ambiente", como diz o professor André Lemos no seu livro "Cibercultura, Tecnologia e Vida Social na Cultura Contemporânea".

Mas será que sabemos como ela realmente funciona? O vídeo abaixo é bem interessante e explica o básico desse universo onde os aplicativos estão mergulhados. Deem uma olhada!




Manuel Castells, no seu livro "Inovação, liberdade e poder na era da informação" é otimista, assim como Jenkins, em relação a democratização proporcionada pela internet. Ambos entendem que o poder do produtor e do consumidor se misturam, graças ao alto poder de interação e democratização (um dos seus grandes diferenciais!!) das novas mídias. 

A interação dos usuário com a internet pode ter várias intensidades e impactos; vai desde postar um tutorial caseiro no youtube, anotar as parte do livro que mais gosta no aplicativo Ebook Reader, até a criação de empresas startups. Muitas dessas empresas têm a tecnologia com meio de fazer seu negócio funcionar, podendo trabalhar na criação de softwares (que inclui os aplicativos) e hardwares. Isso porque elas precisam ser uma modelo de negócio que cresça rápido com baixo investimento e a internet é um ótimo caminho para baratear os custos. 

O site e aplicativo Onde Fui Roubado, por exemplo, é uma startup criada por estudantes de computação da Ufba, Márcio Vicente e Filipe Norton. O principal objetivo da plataforma é mapear os principais pontos de violência da cidade, através das denúncias de usuários que podem indicar, em anonimato, onde, quando e como foram assaltados.

É interessante notar que esse é um bom exemplo de como a teoria da Cultura da Convergência acerta quando trata da relação dos papéis de produtor e consumidor. Os criadores do Onde Fui Roubado eram, inicialmente, consumidores e tornaram-se produtores a partir do momento que criaram a plataforma que, por sua vez, dá aos seus usuários poder para serem co-produtores do conteúdo. Inclusive, sem essa interação, a ideia não daria certo.

Assim, entendemos que a internet possibilita a qualquer usuário o poder de produzir conteúdo. Porém, com as velhas mídias, era possível produzir conteúdo também. Eu podia ter um diário, escrever um livro (mesmo que não publicasse) ou me gravar cantando num gravador analógico. Porém, esses meios não possibilitavam o alcance mundial da minha produção. Através de um sistema livre composto por diversas redes, onde a informação que eu produzo circula por todas essas redes e chega a milhares de pessoas diferentes.

Rede é quando duas coisas (pessoas, computadores) funcionam juntos a partir de "acordos" estabelecidos entre as parte, de forma que ambos se entendam. A internet, por exemplo, é um conjunto de muitas redes de dispositivos com acesso a ela. Ela se utiliza do Protocolo IP (explicado no vídeo acima) para uniformizar a linguagem, facilitando a comunicação entre as partes. 

Viver em rede não é uma característica atual. Todas as sociedades se constituíram assim. Inclusive, a origem da palavra sociedade vem do latim 'societas', uma "associação amistosa com outros", ou seja, formação de uma rede. O termo "rede social" é usado incorretamente, pois todo social já pressupõe uma rede. A forma mais correta de chamarmos facebook, instagram e twitter, por exemplo, seria: site de rede social.




REFERÊNCIAS: 

Artigos e Livros 
  • http://www.dgz.org.br/jun07/Art_03.htm 
  • http://www.editoraaleph.com.br/site/media/catalog/product/f/i/file_1.pdf 
  • http://pt.scribd.com/doc/2620279/cibercultura#scribd 
  • http://pt.slideshare.net/ValdriaSouza/manuel-castells-inovao-liberdade-e-poder-na-era-da-informao

Sites
  • http://cio.com.br/tecnologia/2014/09/01/apps-contextuais-sao-o-novo-modelo-dos-aplicativos-moveis/
  • https://glossariodamidia.wordpress.com/2011/06/29/os-meios-de-comunicacao-como-extensoes-do-homem/
  • https://aboutmarshallmcluhan.wordpress.com/category/aldeia-global/
  • http://www.revistapronews.com.br/edicoes/111/mat_cocooning.html
Vídeos 
  • https://www.youtube.com/watch?v=mBsWb5TWXUQ&spfreload=1
  • https://www.youtube.com/watch?v=E4gcWJaw8aQ&feature=youtu.be
  • https://www.youtube.com/watch?v=yyY_392Tn7Q&feature=youtu.be&list=FL9lL-NgF-knFoHmRzjdFHow
  • http://zip.net/bjq5PW * (vídeo sobre tecnologias TED)
*link encurtado

terça-feira, 7 de abril de 2015

'TV Folha' discute futuro do superpovoado mercado de apps

O número de aplicativos para celular hoje se conta na casa do milhão: só a Play Store, a loja do Google, fechou 2014 com 1,43 milhão desses "programinhas" e a App Store, da Apple, com 1,21 milhão, de acordo com dados da empresa appFigures, que monitora esse mercado. 


Em crescimento rápido, o setor já se prepara para transformações: os apps não podem mais ficar apenas na tela do celular --devem ir também para os relógios inteligentes e outros aparelhos vestíveis-- e terão de brigar pela atenção do usuário, para não serem ícones esquecidos em uma das telas do smartphone. 

Para indicar como será o futuro desse mercado, a "TV Folha" conversa nesta terça-feira (7), às 16h, com Eduardo Henrique, cofundador da produtora de aplicativos Movile, e Dennis Wang, presidente da Easy Taxi. 

A conversa será mediada por Felipe Maia, editor-adjunto de "Mercado/Tec".



Envie perguntas pelo Twitter usando #TVFolha.


Reprodução: Folha de S. Paulo

sexta-feira, 27 de março de 2015

A nossa relação com a Técnica, Tecnologia e Comunicação


Afinal, o que seria técnica, tecnologia e comunicação? A verdade é que não há três elementos separados, eles se misturam. A realidade é, e sempre foi, híbrida. É a modernidade que tenta purificar essa hibridização definindo conceitos distintos para cada um desses elementos. Para entender melhor o tema, no entanto, vamos passar por esses conceitos.

A palavra técnica vem do grego “techné” e significa arte. É o saber fazer prático com uma finalidade. O que na maioria das vezes se concretiza em um objeto, mas isso não é regra. Do artesanato e da culinária até armas de destruição. Tudo isso é técnica. Aplicativos, então, não fogem disso. São o desenvolvimento dessa techné e a junção de varias delas em um artefato multitarefas (o que se configura em uma tecnologia, como veremos a seguir). Quando o Homo Erectus descobriu que produziria fogo com a fricção de duas pedras, fazer fogo – que até então era um saber fazer inerente à natureza - se tornou uma técnica.

Ora, o mundo sempre foi técnico, mas essa técnica de que falamos não está na natureza. A natureza já tem o seu fazer técnico, a que Platão e Aristóteles deram o nome de AUTOPOIETICA. Para os filósofos, a técnica é inferior à natureza e à contemplação (saber ver, filosofar). A techné que nos referimos é a técnica que o homem imita da natureza (POIÉTICA).

Tecnologia vem a ser, portanto, a filosofia da técnica. O fruto da relação da técnica com a ciência. Com o surgimento da tecnociência, o termo acabou virando sinônimo de aparato tecnológico, o que é um equivoco. Tecnologia é a união de técnicas e elementos que não têm um princípio em comum em um aparelho tecnológico que é de utilidade e tem alguma função para a sociedade. Um smartphone – e seus aplicativos, por exemplo, reúne princípios heterogêneos em um só artefato.

Esses artefatos tecnológicos e híbridos que vão guiar o destino do homem no mundo. O mais importante é entender a nossa relação com essa tecnologia. É do senso comum dizer que os aplicativos e a internet são os responsáveis por nos tornarmos mais superficiais, por exemplo. Segundo Pierre Levy, filósofo francês da cultura virtual contemporânea, é um equivoco falar na tecnologia como modificadora de determinada cultura. O que há é o ser humano que inventa, produz, utiliza e interpreta as técnicas. Levy, em seu texto “O inexistente impacto da tecnologia”, afirma que ela é produto de uma sociedade e de uma cultura, portanto, incapazes de, só pela condição de existência, modificar nada. A tecnologia não se constitui como uma entidade passiva, real e dissociada da cultura. Nada é puramente técnico, tudo está contextualizado, portanto, dentro de uma rede sócio-tecnica. É um erro culpabilizar a tecnologia pelo uso que fazemos dela. Em agosto do ano passado, por exemplo, o aplicativo Secret foi banido das lojas virtuais e seu uso proibido por ordem da Justiça brasileira devido às inúmeras queixas de cyberbullying estimulados pelo “anonimato”. O Google entrou com recurso alegando que a empresa autora do Secret não poderia responsabilizar-se pelas ações dos usuários e em outubro do mesmo mês a proibição foi suspensa.

O que muda, então, em diferentes sociedades não é o impacto da tecnologia, mas a qualidade e a intensidade da relação dela com o homem. O que diferencia a nossa relação com o mundo ao escrever uma mensagem usando graveto e areia ou usando caneta e papel já que ambas são técnicas que levam a um mesmo objetivo? Martin Heidegger chegou a pensar a respeito dessa relação em “A questão da Técnica”. A diferença é que na primeira há um diálogo com a natureza que se perde na segunda. A caneta já é um objeto idealizado, matematizado, fruto de uma técnica pré-concebida. No uso da caneta, nos privamos do “saber fazer” técnico, da tentativa e do erro. Ou seja, “não se trata de avaliar os ''impactos'', mas de descobrir o irreversível a que tais usos nos conduziriam, as ocasiões que ela nos permitiria lançar mão e formular os projetos que explorariam as virtualidades de que ela é portadora, de decidir o que faremos com ela” (LEVY, P).

É preciso voltar ao Séc. XX para entender melhor essa relação que temos com a tecnologia. Até então tinha uma fissura entre o que era comunicação e o que era tecnologia. A explosão das tecnocomunicações foi o “start” para o desaparecimento dessa fissura. Hoje, quando falamos em tecnologia, vinculamos imediatamente à comunicação. E não é para menos, comunicação deriva do latim e significa participar algo, sair do isolamento. Ora, vivemos para transmitir o saber e a tecnologia se tornou a mais eficiente ferramenta de integração e troca mútua. Ela dribla o constrangimento do espaço e do tempo e amplia o processo de adquirir informação de lugares diversos.

É senso comum a ideia de que a internet acaba isolando as pessoas, mas podemos ver que o que acontece o contrário. Com os aumentos historicamente evidentes da artificialização, da informação e da liberdade de escolha dessa informação, estamos ampliando as possibilidades romper esse isolamento. Mesmo os aplicativos móveis programados inicialmente para realizar funções fora do nível social são utilizados como ferramenta de apoio para estabelecer essas relações. Como um Leitor de Código QR utilizado em campanha publicitária para facilitar interações entre os clientes de um bar em Cingapura.

Toda mídia visa romper o isolamento. Isso sim é preocupante. O perigo é não conseguirmos nos isolar mais, deixar de se conectar. O isolamento não é ruim, ele é fundamental. Precisamos nos isolar de vez em quando, nos conectar com nós mesmos. Ler um livro ou ver um filme são formas de isolamento e desconexão. A plena comunicação é nefasta e o completo isolamento é também ruim. É preciso encontrar um equilíbrio.

Michel Serres em seu livro “Polegarzinha” (link) diz que as gerações passadas nunca procuraram novas formas de se relacionar, não romperam isolamento nenhum. Nossa geração é a única que tem a possibilidade de criar novos laços. Nós, polegarzinhos e polegarzinhas, estamos sempre procurando novas formas de interação com o outro, uma dessas são as redes sociais. Além disso, as tecnologias móveis estimulam velhos rituais sociais como trocas. É o caso do Instagram (aplicativo de postagem de fotografias) e outros aplicativos em que o objetivo é, muito mais, fazer contato com o outro do que compartilhar os momentos. Tiramos fotos de momentos banais, da comida, mostrando onde estamos. O importante é a circulação. “Os DHMCM [Dispositivos Híbridos Móveis de Conexão Multirrede] agem como artefatos para suporte de sociabilidade, de formas de “estar junto” (LEMOS 2007)

O que impulsionou o mercado de aplicativos foi essa necessidade de comunicar e encurtar distancias. Os primeiros aplicativos existentes surgiram para suprir essa necessidade de comunicação com o mundo e com o outro. Isso gerou um fluxo de informação muito maior. Agora, o saber está na internet, disponível. Já está transmitido. Segundo Michel Serres, isso origina outro problema: precisamos mudar a forma de educar. Não só o ensino em si, mas as instituições em geral da sociedade (política, justiça, saúde, empresas...) se tornaram ultrapassadas.

A educação como está instaurada, focada na figura de um professor que teoricamente é a fonte de todo o saber, não faz mais sentido na sociedade pós-moderna. Temos, em sala de aula, uma juventude que vê o mundo como um reservatório de saber para ser utilizado. E essa e a essência da tecnociência. Assim, geramos a necessidade de transformar tudo em dados, código binário para poder ser lido e veiculado em computadores. Sentar e ouvir o professor já não é tão interessante como era para outras gerações. Se a internet, tablets, aplicativos e os computadores forem utilizados como um mecanismo para estimular os alunos e agregar valor ao trabalho do professor sem substituí-lo, não há porque abdica-los. É assertivo, portanto, pensar a tecnologia como um recurso estratégico voltado para uma ação pedagógica diferenciada.  (Leia mais sobre as 10 tendências da tecnologia na educação)

Outra questão importante que também revela muito sobre a nossa relação com a tecnologia é a complexa discussão sobre a efemeridade tecnológica. Cada vez mais utilizamos os aparelhos tecnológicos por menos tempo, ou por que lançam modelos mais novos e somos seduzidos de tal forma que nos obrigamos a consumir sempre o ultimo modelo ou porque vivemos em uma sociedade dominada por uma economia de crescimento e a obsolescência programada da tecnologia é uma realidade. A lógica da obsolescência programada não é crescer para satisfazer necessidades, é crescer por crescer. É bem simples: para a economia crescer, é preciso que as pessoas comprem e para fazer com que as pessoas comprem, é necessário limitar o tempo de uso de cada dispositivo. Um exemplo muito claro e atual dessa obsolescência é o que gira em torno do iOS da Apple no que diz respeito às versões anteriores do iPhone que depois de determinada quantidade de atualizações simplesmente param de rodar os aplicativos.

Estamos tão acostumados com a efemeridade das coisas que acabamos tornando efêmeras a nossa relação com tudo, nunca se teve uma geração tão dinâmica como a nossa. Há um tempo, o nosso aplicativo mais usado era o Messenger (MSN), depois de um tempo o MSN se tornou arcaico, passamos para o Orkut e hoje estamos no Facebook. Tudo isso em cerca de 10 anos. Segundo Phil Libin, o fundador do Evernote (aplicativo popular de anotações) os aplicativos estarão obsoletos em breve. Para Libin, apesar de ser um sucesso, os apps não estão mais no topo quando se fala em ferramentas de comunicação. Enquanto a produtividade em um computador flui em ciclos de 2 a 3 horas, a produtividade em uma tela de celular é alcançada em espaços muito pequenos de tempo. As telas dos celulares estão ficando cada vez menores, o que prendem a atenção do usuário por mais tempo para assimilar uma informação, diminuindo o tempo de produtividade. Enquanto no computador gastamos um ou dois segundos para ver e assimilar uma informação, nos aplicativos (na configuração que conhecemos hoje) não conseguimos nem abri-lo nesse tempo. Os aplicativos são feitos para iterações breves, então vai ser cada vez mais difícil fazer com que um aplicativo consiga fazer o usuário ser produtivo em segundos. Para Libin, os wearables (tecnologias de vestir como relógios e óculos) são o futuro da tecnologia móvel.



REFERÊNCIAS


Joly, M. C. R. A. (org.) 2002. A tecnologia no ensino: implicações para a aprendizagem. São Paulo: Casa do Psicólogo, 162 p.

LEMOS, A. 2007. Dossiê André Lemos. Comunicação, mídia e consumo. São Paulo. Vol 4, n.10
Disponível em: <http://revistas.univerciencia.org/index.php/comunicacaomidiaeconsumo/article/view/5016/4640> Acesso em: 25/03/2015.

LEVY, P. “ O inexistente impacto da tecnologia” Disponível em: <https://dl.dropboxusercontent.com/u/2055897/impacto.doc> Acesso em: 22/03/2015. 

terça-feira, 24 de março de 2015

Cada louco com seu app !!

Confiram a lista de 15 aplicativos que, com certeza, são os mais inúteis já feitos para smartphones. E o campeão de inutilidade é o "iBeer", que permite ao usuário "beber cerveja" num copo virtual.



E aí, você baixaria algum deles?


sexta-feira, 20 de março de 2015

"Bolha de filtro" e Subjetividade

Com a extensa diversidade de conteúdo informativo disponível ao nosso acesso, a tarefa de selecionar qual informação é a mais adequada para consumirmos se tornou mais difícil. Se por um lado todo esse acervo, de fácil acessibilidade, nos permite uma amplitude maior para adquirir conhecimento, por outro, é necessário um poder de seleção muito grande para saber o que vale ou não a pena ser absorvido.  O exemplo mais fiel a tal situação é a Internet. Há não muito tempo, o hipertexto era uma ferramenta totalmente aberta - e ainda o é - , uma "terra" livre "trilhas" em que dependia somente do nosso senso de pesquisa. Bastava dar um simples clique que, de repente, pulávamos de conteúdo para conteúdo sem qualquer lógica existente entre os mesmos. Porém, nos últimos anos, a navegação passou a ser muito mais centralizadora do que dispersa. Diversas redes sociais e plataformas de pesquisa, como a Google, o Facebook, o Yahoo e a Microsoft formam uma espécie de "condomínio" em que seus usuários raramente costuma se distanciar.

Explicando de uma forma geral, tais ferramentas criam uma hierarquia de conteúdo, selecionando para você, usuário, com aquilo que é considerado mais pertinente. Isso acontece ao entregarmos nossos dados para essas empresas - cadastro no Facebook, por exemplo -, permitindo que nossa experiência na web seja personalizada. Este fenômeno é o que muitos chamam de "ditadura do algorítimo": uma ilusão de livre-arbítrio foi criada pelas máquinas, fazendo com que nós acreditemos que o conteúdo que encontramos na internet foi consequência do acaso, quando na verdade fomos guiados até ele. 

Analisando de uma forma superficial, podemos até dizer que essa personalização de conteúdo é uma vantagem, um guia. Porém, ao dissecarmos a situação, nos concentrarmos nas camadas mais profundas, vemos que não é bem assim. O problema central está no conjunto, no resultado final da ação. Se considerarmos esses filtros como um todo obtemos o efeito chamado "bolha de filtro". A sua bolha é seu universo. O conteúdo existente nela é, de acordo com essa lógica de seleção, o único em que terá interesse em consumir. Tudo o que está fora dela é, teoricamente, irrelevante para você. Perdemos, então, a chance de escolher qual tipo de informação vamos consumir. 

Logo, sua bolha de filtro - dependendo do conteúdo existente nela -, aos poucos vai moldando quem você é e o que você faz. Hoje, a constituição do ser humano está diretamente ligada às relações com as coisas. Estamos sendo construídos artificialmente, concentramos nossas experiências nos objetos ao nosso redor. Os aplicativos, por exemplo, são intermediários, tradutores da nossa comunicação com o mundo. Contudo, a tecnologia não só prolonga o homem como também o constitui. E é através dessa relação que modificamos nossa percepção de mundo. 

Com a chagada do Smartphone, essa relação mudou um pouco mais. Um único aparelho concentrou as funções de vários outros, que costumávamos ter um contato singular, em um só objeto. O novo e prático aparelho se tornou, então, essencial para nossa "sobrevivência", justificados pela busca ao novo (UNICAMP, 2014). Nosso vínculo com todos os outros objetos mudou muito. Passamos a usar alguns esporadicamente ou simplesmente o descartamos. 

Não entenda mal, a tecnologia atual é uma das maravilhas modernas que facilita o nosso cotidiano em diversos níveis. É de uma praticidade imensa possuir despertador, agenda, calculadora, TV, câmera, dicionário, mapas  disponíveis em um único aparelho ao alcance das mãos e gratuito. O perigo mora, contudo, na dependência tecnológica. Se você perde seu aparelho, você perde não só informações importantes, como também suas memórias e, então, sua subjetividade.

Fontes:
"Serendipidade: encontros com o acaso" TORRES, Bolívar.
"Estudo da Dependência Tecnológica de Jovens Universitários" NAGATA, Erick Tekeo; SCHELTINGA, Priscila Strasser; DE JESUS, Alan Rodolfo; DA VEIGA, Yuri Schiavon - UNICAMP.
Vídeo "Bolha de Filtro", Eliparisier. 

quarta-feira, 11 de março de 2015

Adeus, browsers: a moda dos aplicativos

Pegue seu smartphone. Quantos aplicativos você tem? Quantas vezes por dia você os usa? Agora se imagine sem eles. Quantos telefones você sabe de cor? Qual a última vez que utilizou uma calculadora de verdade? Será que consegue acordar sem despertador?

Não se vê sem eles, né?! Então você faz parte dos 74% dos brasileiros que priorizam o uso de aplicativos nos seus smartphones, segundo pesquisa da consultoria Nielsen. Isso indica que os usuários preferem cada vez mais acessar a internet através dos aplicativos. Há cinco anos, a média de tempo que passamos nos app’s já ultrapassava a do browser, 94min contra 72min.

Mas, afinal, o que é aplicativo?

Aqueles maravilhosos “quadradinhos” que salvam nossas vidas são chamados softwares aplicativos, programas que ajudam o usuário em uma tarefa específica. Desde enviar mensagem de texto até estourar plástico bolha virtualmente. E não se restringem apenas a aparelhos móveis, existem aplicativos para desktops. O Google Chrome, por exemplo, disponibiliza uma loja de app’s para computadores.

Hoje grande parte da comunicação é feita através deles, alimentado um intenso fluxo de informação. Assim, é inevitável falar sobre seus pontos positivos e negativos. Aguardem os próximos appsódios!