sexta-feira, 22 de maio de 2015

Sorria, você está sendo controlado!

Vivemos hoje a sociedade do controle, do monitoramento e da vigilância. Toda informação produzida na internet deixa rastros sobre nós, isso é, produzem dados, tecem perfis e, acima de tudo, possibilitam vigiar o nosso comportamento. Isso, indiscutivelmente, tem repercussões para futuro na medida em que transforma a subjetividade de como nos relacionamos com o mundo.

Na visão de Michel Foucault, a disciplina é uma arma essencial para o funcionamento da sociedade na economia, política e na guerra. Isso acontece porque seres humanos disciplinados são “corpos dóceis”, isso é, de fácil controle. Nesse sentido, para controlá-los é preciso observar, registrar e impor a disciplina sem força excessiva. Segundo o filósofo, a sociedade é marcada pelo desvio à norma, portanto, interiorizar a culpa e causar remorsos seria a única forma de garantir o cumprimento das regras.

Em 1789, Jeremy Bentham idealizou o dispositivo disciplinar que melhor exemplifica as ideias foucaultianas e que marca parte da estrutura social e do poder atuais: o panóptico, um sistema de segurança caracterizado pela “visão desigual”. Ou seja, consiste num ponto de vigilância central e alto diante de uma prisão circular e panorâmica. Assim, quem está vigiando vê tudo, mas, quem está sendo vigiado não consegue ver se tem alguém olhando. É uma espécie de prisão “mental” marcada, principalmente, pela autocensura e autodisciplina, a própria estrutura já exerce a vigilância.

A visão panóptica mostra como a sociedade se constitui, até hoje, a partir de formas de vigilância que exercem poder sobre as pessoas. A vigilância por câmeras de segurança é um exemplo atual disso. Elas mudam o comportamento dos indivíduos e criam sujeitos inseguros. A partir do momento que instala-se uma câmera em um local, significa que algo perigoso já aconteceu ou pode acontecer naquela região.

Com uma câmera, a constituição do sujeito se altera. Coloca-o em um regime de vigilância temporal. Assim, a materialidade desse equipamento não é neutra, já que ele é colocado por um homem que não é imparcial. Todo dispositivo é uma atitude, isso é, teve a atitude de produzi-lo e de coloca-lo naquele lugar. Assim como no panóptico de Bentham, a materialidade da câmera institui o poder.

Hoje a situação se torna um pouco mais preocupante: existem câmeras com softwares poderosíssimos que não olham para todos os lugares, elas dirigem o olhar e monitoram comportamentos suspeitos, fora dos padrões. Há modelos estatísticos do que seria um comportamento normal. Usar jaqueta no verão, por exemplo, é considerado um comportamento esquisito. A partir disso, a câmera guia seu olhar para a pessoa. As câmeras do metrô de São Paulo são exemplos, podem monitorar comportamentos estranhos e se a pessoa é procurada pela polícia. Alguns países usam esses softwares com o argumento de evitar o terrorismo. Isso é extremamente assustador, pois, pior do que o modelo foucaultiano, todas as pessoas passam a ser suspeitas. 


O RFID (Identificação por rádio frequência) é um exemplo claro de vigilância. Trata-se de um chip que é capaz de vigiar, à distancia, desde produtos até indivíduos. Concentra todas as informações dos indivíduos em banco de dados.

Outro sistema de vigilância que atualiza isso é o de Gilles Deleuze, a Sociedade do Controle. Nesse modelo, não se trata mais de confinar, vigiar e punir, como previa Foucault, mas de usar as novas tecnologias para o controle social. Consiste em deixar o movimento acontecer e, com isso, extrair dados que geram um controle eficaz, contudo, muito mais perigoso.

O princípio da disciplina de Foucault continua, já que os indivíduos entregam seus dados voluntariamente à vigilância (pelos logins em sites, pelo GPS do celular, por compras em cartão de crédito, etc), o que não é, necessariamente, ruim. Controle não é necessariamente negativo. Controlar os dados estatísticos, por exemplo, pode significar gerar políticas publicas eficazes. Depende de quem e como exerce esse controle. O estado, por exemplo, tem o dever de controlar para conseguir produzir políticas públicas.

A publicidade usa esse controle para direcionar o marketing de forma individualizada, é o chamado marketing one to one. Dessa forma, sugere produtos que, pelo perfil de compra do consumidor, provavelmente ele comprará. Isso pode ser invasivo ou ajudar o consumidor na compra.
A grande mudança é no tempo e precisão dessas estatísticas. O que antes era um processo de pesquisa trabalhosa e com uma amostra pequena da população, se tornou um dado disponível em tempo real e que abarca um número muito maior de indivíduos, quase total. Transforma uma sociedade da sondagem em uma sociedade da big data, ou seja, todos os dados coletados.

É possível saber, por exemplo, quantas pessoas, em uma dada região, têm determinada doença sem precisar ir até os hospitais e consultórios, basta ver quantas pessoas pesquisaram os sintomas no google ou compraram tal remédio. A partir disso, pode-se produzir políticas públicas eficazes. 
O que temos hoje, portanto, é uma vigilância difusa e pessoal, um controle invisível. Não existe um objeto que vigia, assim, não dá para ver esse controle. Muitas pessoas nem sabem que estão sendo controladas em tempo real. O panóptico é visível, já a sociedade do controle é fluida, imperceptível, por isso, mais perigosa.

As pessoas tendem a não se preocupar com a privacidade e anonimato já que esses mecanismos (Google, Facebook. Whatsapp, etc.) fornecem gratuitamente um mundo de possibilidades aos usuários. Os dados que são fornecidos por nós, entra em um banco de dados que acaba controlando tudo o que fazemos, onde estamos, como é a nossa rotina, para quem ligamos, etc.

Esse quadro de despreocupação pode mudar um pouco com a internet das coisas, isso é, uma tecnologia que conecta ativos remotos e tem o objetivo de estabelecer conexão entre os objetos através da internet. O objeto percebe o seu ambiente. Dessa forma, uma pessoa pode programar a geladeira para avisar quando acabar o leite, a cafeteira pode ligar assim que a garagem abrir ou pode-se desligar a luz do quarto pelo celular quando está no trabalho.

Atualmente existe um aplicativo disponível no Brasil que usa essa lógica, chamasse IFTTT (If this than that). Através dele, o usuário pode programar o celular para, automaticamente, ficar no modo silencioso assim que chegar no trabalho ou desligar lâmpadas inteligentes assim que sair de casa. (Saiba mais sobre o IFTTT)

A internet das coisas é genial e facilitadora em muitos aspectos, mas pode ser extremamente perigosa. Sempre há o perigo da interceptação do hacker, que, nesse caso, adentra muito mais na vida pessoal do que quando hackeia um computador. Justamente por isso, alguns artigos alertam que pela primeira vez as pessoas vão se preocupar com a segurança. Vão exigir criptografias mais fortes e difíceis de serem hackeadas.

A internet das coisas vem tomando espaço. Hoje, existem mais objetos conectados à internet do que pessoas. A apple, que na última atualização lançou um aplicativo para controlar a saúde, já anunciou que o próximo iOS, terá um aplicativo que permite controlar a casa pelo iphone. O app Home permitirá se conectar com a porta da garagem, luzes, câmeras, etc. (Saiba mais sobre o Home)

Diferença entre CONTROLE, MONITORAMENTO e VIGILÂNCIA
Para melhor entendimento, faz-se necessário diferenciar o controle, o monitoramento e a vigilância. Nem toda forma de controle e monitoramento é vigilância. Controle diz respeito a números. Monitoramento é a tomada de dados sobre determinados eventos, é a junção dos dados para produzir uma informação, uma estatística. E, por fim, vigilância é quando o intuito é prevenir algo no futuro, é mais particular, tenta evitar algo.

Essas definições constantemente se confundem. Quando falamos em aplicativos a coisa vai se complicando e ficando mais complexa. O aplicativo WASE, por exemplo, controla, monitora e serve de mecanismo  contra a vigilância ao mesmo tempo. Ora, o WASE pega os dados e planeja a sua rota, ou seja, tem controle. Pode haver monitoramento, pois se o usuário, ao longo da sua experiência com o app, sabe que determinada rua é sempre engarrafada, ele produz uma informação sobre aquilo e passa a não escolher aquela rota. Além de tudo, o app permite controlar alguém, é possível colocar o nome de um conhecido e saber se ele passa por perto.

O twitter é outro aplicativo que exerce vigilância. É possível seguir as pessoas para saber o que ela está twitando.

Atualmente existem movimentos contra vigilância. Alguns aplicativos, inclusive, foram criados nesse intuito, é o caso do I-see, um app que fornece o caminho de A para B evitando todas as câmeras de vigilância (Saiba mais sobre o I-see). O WASE também exerce essa função. Sua característica contra a vigilância é a mais perceptível. O indivíduo consegue ver onde tem blitz e, assim, burlar a vigilância.

O celular é um instrumento de vigilância e de contra vigilância, pois, pode filmar, por exemplo, a polícia matando alguém ou pode executar aplicativos de contra vigilância, por exemplo. Ele amplia o poder do cidadão de vigiar àquele que o vigia.

Desde a sociedade panóptica até a extração imperceptível de dados, temos o nosso comportamento constantemente controlado, seja através de câmeras ou pelos rastros que deixamos na rede. Portanto, a grande discussão versa entre a segurança e a insegurança a qual nos submetemos. Estamos seguros? Vale a pena a perda do anonimato? É válido abrir mão da privacidade em troca dos benefícios da internet? Essa sociedade do controle produz a nossa subjetividade, muda comportamentos. Não há mais um lugar restrito onde o poder se faça sentir, pelo contrário: ele se faz presente em todos os lugares.

REFERÊNCIAS:
 



sexta-feira, 8 de maio de 2015

Cyber/Hacktivismo e sua mobilidade na internet

Os primeiros vestígios de Cyberativismo surgiram em meados da primeira metade da década de 1990, juntamente com a popularização da internet. Um exemplo disso foi quando a revista Z Magazine ofereceu cursos online através da Online University of the Left, aceitando inscrições no curso de "Utilizar a internet e sistemas eletrônicos para o cyberativismo" por volta de 1998. A forma rápida de como as ideias se propagam através da internet chamou a atenção de ativistas - cujas causas são, normalmente, de cunho ambiental, político ou social -, que costumam divulgar suas mensagens por outros meios de comunicação. 

E o Hacktivismo apareceu quase que de "mãos dadas" com o cyber, por volta da segunda metade da década de 1990; Mais especificamente através do site Cult of the Dead Cow que inclui entre as suas crenças o direito fundamental ao acesso a informações. Geralmente, o hacktivismo consiste na escrita de códigos e manipulação de bits para difundir a ideologia política, promovendo liberdade de expressão, direitos humanos ou informação ética.

Nos dias atuais, os principais exemplos de movimentos cyberativistas foram o do Passe Livre - movimento social brasileiro que defende a adoção da tarifa zero para transporte coletivo -, e o Panelaço - movimento social contra o governo atual -, ocorridos entre o primeiros semestres de 2013 a 2015. Nos dois casos, a comunicação, organização, difusão de ideias e conceitos foi toda feita através da internet, através de redes sociais e seus determinados aplicativos, como o Twitter, Facebook e outros. E pensando em toda essa mobilização, o agente publicitário Marcelo Jereissati Hage Nicolau criou o aplicativo Ipanelaço, um app que reproduz o som das panelas se batendo.

A principal característica do cyberativismo é a utilização da internet para movimentos sociais ou populares. A diferença entre movimentos sociais e movimentos populares é que esse último é pontual, enquanto o social é um movimento organizado e complexo que perdura por um tempo. As etapas do movimento são informar sua existência, adquirir colaboração da mídia para o movimento (sempre com algum objetivo, claro), difusão da informação no sentido de contribuição para as mobilizações (entrevistas que corroboram as teses das manifestações). 

Apesar de estar basicamente tudo à distância de um clique, não quer dizer que o cyberativismo se restrinja apenas a isso. Além do virtual, ainda é necessária a existência do ativismo real, por um ainda ser muito dependente do outro e ambos fazerem parte de um processo que se completa. É preciso também, o comprometimento e conhecimento do/a ativista pela causa que se está lutando e não apenas um clique a mais ou a menos.

Alguns grupos se encaixam no que se pode chamar de “guerrilha midiática” a fim de desmascarar a mídia, mostrando o quanto ela não é confiável, a fragilidade da verdade oficial nas notícias transmitidas. Luther Blissett é um exemplo de um pseudônimo usado por muitos ativistas na realização de denuncias nesta guerrilha. Este nome vem sendo utilizado desde 1994 na Itália e se alastrou pelo mundo. Tornou-se famoso, um herói popular devido as suas ações como intervenções, cartas, falsas noticias, livros; tudo assinado por L.B.

As noticias da primeira aparição ativista social que se tem noticia, são do Exército Zapatista de Libertação Nacional, 1994, em listas de discussão, e-mails e site FTP (Protocolo de Transferência de Arquivos), mas só em 1996 criaram sua própria homepage onde podiam reivindicar os direitos indígenas ao mesmo tempo em que aproximavam seu discurso ao de novos movimentos sociais esquerdistas e ampliavam o seu campo de batalha.

A principal atividade dos hackers é pegar documentos sigilosos e colocá-los em livre circulação (Snowden, Julian Assange da Wikileaks e o Anonymous são dois exemplos atuais) pela internet por um determinado espaço de tempo, apenas o suficiente para o conhecimento geral, e depois criam um sistema criptografado que tornam tais documentos invioláveis. A intenção é democratizar a tecnologia e a informação. Disseminá-la e torná-la mais democrática. Inicialmente não eram engajados politicamente, eram "nerds" que perceberam que podiam fazer isso na garagem de casa. A leitura política veio depois e apareceu mais por curiosidade.

Os primeiros indícios de atividade hacker começou pelo telefone (os phreaks). Perceberam que determinadas frequências permitiam ligações gratuitas. Produziram uma caixinha azul em que ao encostar no aparelho telefônico ele realizava ligações de graça para outras pessoas, além das “party lines” (festas em linhas) onde mandavam trotes para pessoas famosas. Tinha o lado da brincadeira e o lado ativista. E do termo phreaks surgiu o termo hackers, que criaram a micro computação. Os países costumam usar os hackers para a “Guerra Cibernética” É esse engajamento social e político que diferencia os hackers dos crackers, criminosos que vendem e roubam informações, invadem contas bancárias de pessoas comuns... Basicamente, se prejudica a grande população são crackers, se não, são os hackers.



Fontes:



G1

Exame.com
Youtube
Amadeu da Silveira, S. Ciberativismo, cultura hacker e o individualismo colaborativo.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

A efemeridade das tribos virtuais


O surgimento da internet permitiu a criação de um ambiente de socialização diferente do real em muitos aspectos. Ainda é difícil analisar com precisão os impactos causados pela internet porque vivemos seus momentos iniciais, mas as mudanças na dinâmica social são perceptíveis. Com o desenvolvimento das tecnologias digitais, o fluxo de informação e as conexões entre usuários tornaram-se tão intensas que a relações interpessoais passaram a demonstrar certa dependência do mundo virtual. “Talvez estejamos vivendo uma reversão do processo de isolamento individualista moderno, buscando, pelas tecnologias (o que é estranho) uma nova forma de agregação social (eletrônica, efêmera e planetária), o que chamo de agregação eletrônica”[1].

O conceito de tribo, por exemplo, foi resgatado e adaptado para o ambiente digital. Inicialmente, tribo designava um grupo de pessoas que participavam das mesmas atividades, estavam submetidos às mesmas leis e compartilhavam da mesma cultura. No tribalismo urbano, um fenômeno virtual, a construção da identidade, chamada de máscara ou persona, está apoiada no outro. As tribos virtuais são constituídas de microgrupos que têm como objetivo principal estabelecer redes de amigos com base em interesses comuns. A grande promessa das redes sociais é exatamente a de reunir pessoas que compartilhem dos mesmos gostos. Um exemplo é o aplicativo “Tastebuds”, disponível para iPhones e iPads. O aplicativo conecta o usuário com pessoas que possuam gostos musicais semelhantes e que estejam próximas. 

A portabilidade dos aparelhos eletrônicos pode ser apontada como um dos catalisadores no processo de “enlaçamento virtual”, e os aplicativos como ferramentas com as quais esses laços podem ser criados. O que irá diferenciar uma tribo moderna das constituições das tribos arcaicas é o fato delas serem efêmeras e não totalmente agrupadas; das pessoas poderem pertencer a várias tribos diferentes; dos laços pós-modernos das tribos serem conceituais; e por seus membros relacionarem-se pelo compartilhamento de sensações[2]. Um dos fundadores do Tinder, conhecido aplicativo de paquera, declarou que “o objetivo da plataforma é formar uma conexão e, não necessariamente, encontrar com alguém pessoalmente”. Como balanceador dessas relações efêmeras surgem outros aplicativos que apostam nas conexões formadas entre pessoas com proximidade social e espacial. É o caso do Kickoff, aplicativo semelhante ao Tinder, mas que baseia-se no círculo de amigos para sugerir possíveis perfis. 


Espaços virtuais transformaram-se em locais onde é quase inadmissível não possuir um perfil em alguma rede social. Na maioria dos sites é improvável não encontrarmos um hiperlink que permita a criação de um perfil, um acesso exclusivo para usuários ou a personalização de uma página de acordo com as preferências de quem a acessa. Essa é uma das estratégias que o Facebook utiliza para manter-se no mercado: dividir sua audiência pelos seus interesses em diferentes aplicativos e investir nas plataformas móveis (Instagram, Messenger, Whatsapp) para recolher informações mais detalhadas sobre o usuário. Essas estratégias ajudam o algoritmo do Facebook a entender qual o melhor lugar para ele impactar os usuários com publicidade e assim a empresa deixa os anunciantes mais satisfeitos. Bernard Cova (1997) diz que as empresas que pretendem direcionar seus negócios para as organizações sociais no formato de tribos, devem tirar o foco das relações clientes-empresa e passar a privilegiar a relação entre os clientes[3]. A fidelização das relações virtuais pela forma cognitiva é substituída pelas relações afetivas.

Fontes
[2] COVA, Bernard e COVA, Véronique. Tribal Marketing: the tribalisation of society and its impact on the conduct of marketing. European Journal of Marketing, Vol. 36, nº 5/6, pp. 595-620, 2002.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

A Era do Conteúdo Digital: novidades, vantagens e desafios

Graças aos novos formatos de mídia na internet, a produção de conteúdo digital se expandiu e continua se expandindo progressivamente. Mas, afinal, o que vem a ser conteúdo digital? É todo aquele conteúdo disponível em plataformas digitais, que tem por característica vantagens técnicas em relação ao conteúdo analógico, como: facilidade de produção, reprodução e manipulação. 

Num vídeo sobre obsolescência da educação, Manuell Castells cita um trabalho de um aluno publicado na Revista Science, no qual calculou que 97% da informação do planeta está hoje digitalizada e 80% dela se encontra na internet. As tais facilidades de reprodução digital rapidamente se tornaram um problema para a gestão de direitos autorais, justo que se consolidou como um modo muito mais fácil de gerar cópias, o que, na prática, acabou por favorecer o mercado de pirataria. 

A batalha dos artistas em receber direitos autorais pelas músicas disponibilizadas no Youtube está agora nas mãos da justiça brasileira. O Google está há 27 meses sem pagá-los. Em sua página no Facebook a cantora Mallu Magalhães desabafou: "Sou filha da internet e otimista por natureza. Mas tenho perdido a fé que de os gigantes finalmente demonstrem respeito e honestidade não só aos músicos como a todos os produtores de conteúdo. Não é nada justo que o veículo, que depende do conteúdo, seja o único remunerado do negócio".

A sede por conteúdos gratuitos está refletida na pesquisa Internet Pop, do Ibope Media, realizada no ano passado. Segundo a mesma, a maioria dos brasileiros consome apenas conteúdo digital de graça. Essa fatia corresponde a 75% de usuários de smartphones (três em cada quatro donos de aparelhos) que preferem usar apenas aplicativos gratuitos. Somente 14% deles acessam serviços pagos de vídeo, como o Netflix. Por conta disso, a gerente de Learning & Insights do Ipobe Media, Juliana Sawaia, alerta que desenvolvedores de aplicativos precisam pensar no valor agregado do produto. "Se este promete trazer uma resposta que um grande público espera, é possível cobrar algo em torno de dois dólares, por exemplo, mas tudo depende do produto", aponta ela. 

A emergência de dispositivos móveis, bem como o consequente surgimento de aplicativos móveis, fez expandir a produção de conteúdo em convergência. A distribuição de conteúdos em multiplataformas ainda se encontra numa fase de transição, com adequação destes às interfaces, mas pouca exploração dos potenciais dos sistemas móveis. Fazer os conteúdos irem além, cruzar outras mídias (crossmedia), é algo que está acontecendo gradualmente. Lançado há pouco tempo pelo Twitter, o aplicativo Periscope entra nessa perspectiva. Com ele é possível produzir vídeos de acontecimentos ao vivo e a transmissão se dá através do microblog. 

Como produtores de conteúdo, os jornais estão enfrentando desafios na convergência para estes formatos. Recentemente, o Google reformou o algoritmo de exibição de sites. Agora, além de ter design adequado, as páginas deverão ser otimizadas para carregar em smartphones. As que não se adaptarem a esse modelo não serão ranqueadas entre os primeiros resultados. Segundo o próprio Google, essa é uma resposta à tendência de uso dos dispositivos móveis em relação aos browsers. Para o jornalismo, o trabalho por trás de desenvolvimento SEO* é dispendioso, pois além de jornalistas e designers, agora são necessários programadores. Os jornalistas do agora e do futuro precisam se preparar. Para Raju Narisetti, vice-presidente sênior da News Corporations, é preciso também pensar em fazer as notícias chegarem ao leitor, já que com o advento das redes sociais, principalmente o Facebook, o público já não se empenha em buscar a notícia.

*Search Engine Optimization (SEO) é um conjunto de métodos que visam melhorar o posicionamento de suas páginas no mecanismo de busca e também técnicas capazes de alterar ou melhorar aspectos internos de um site.

Jornais baianos. Apenas A Tarde e Tribuna da Bahia estão otimizados para mobile.

O momento sociocultural é favorável ao mercado móvel e a publicidade já está atenta a esse nicho. Para continuar faturando com a produção de conteúdo, sites, jornais, revistas e outros veículos de comunicação apostaram na convergência para o meio digital. O paywall, por exemplo, é um sistema de ganho por assinatura baseado na oferta de conteúdos digitais restritos. Essa foi uma das formas encontradas de se diversificar a receita após a diminuição das tiragens impressas. A Folha de S. Paulo é um dos jornais que adotam paywall no Brasil, ela oferece um limite de acesso de até 20 páginas mensais. Essa alternativa de disponibilizar uma demonstração do conteúdo de forma gratuita se configura como uma estratégia para que o usuário deseje adquirir assinatura com maior limite. 

O conceito de mídia, incluindo as móveis, está cada vez mais complexo no contexto de inovação digital. Surge um novo sistema de comunicações em que se fala de cultura de participação. As narrativas estão cada dia mais democráticas, o que quer dizer que qualquer um que possua acesso à internet pode disseminar conteúdo através dos mais diversos canais. Inteligência coletiva, meus amigos. O mundo está conectado, eis a era digital. Um comercial no mínimo divertido produzido pela MTS anuncia esses novos tempos em que já "nascemos super conectados":

  

Fontes:
BARBOSA, Suzana. ; SILVA, Fernando Firmino da ; NOGUEIRA, Leila. . Análise da convergência de conteúdos em produtos jornalísticos com presença multiplataforma. Mídia e Cotidiano, v. v.2, p. 139-162, 2013.
Vídeo: Cultura da Convergência - Henry Jenkins
Vídeo: Free - O futuro é grátis (Chris Anderson) 

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Como os app's junto aos novos meios de comunicação interagem com a sociedade

Mc Luhan não viveu na época dos aplicativos de celular. Mas desde lá, questionava as mudanças culturais geradas pelos novos meios de comunicação. Em duas de suas teorias, podemos colocar os app's como exemplo. Vamos entender porque o termo "rede social" não é correto e o que liga a teoria da Convergência ao tema do blog. Isso tudo ocorrendo por meio da internet e das novas mídias. 

Novas mídias são, necessariamente, digitais. Ser digital é o que as difere das velhas (analógicas). O que muda no digital é sua forma de armazenar e transportar as informações; o analógico impregna a informação em um suporte físico para poder ser reproduzida, enquanto o digital transforma qualquer informação em um código binário, que utiliza apenas os números 0 e 1 para tudo, em diversas combinações. Por serem digitais, aplicativos são nova mídia. Quando digitalizamos algo, roubamos dele sua materialidade e o colocamos no ciberespaço.

"O ciberespaço é definido como um mundo virtual porque está presente em potência, é um espaço desterritorializante. Esse mundo não é palpável, mas existe de outra forma, outra realidade. Não podemos, sequer, afirmar que o ciberespaço está presente nos computadores, tampouco nas redes, afinal, onde fica o ciberespaço? Para onde vai todo esse “mundo” quando desligamos os nossos computadores? É esse caráter fluido do ciberespaço que o torna virtual", divaga Silvana Drumond Monteiro no seu artigo "O Ciberespaço: o termo, a definição e o conceito"

E se Luhan não previa o mundo permeado de aplicativos como hoje, não poderia imaginar que já estão em processo de produção as chamadas 'Tecnologia de Sexto Sentido' (TED), onde seremos capazes de interagir com imagens projetadas como se fosse uma tela de toque (repare na imagem abaixo). Para isso, são necessários: uma mini-câmera, um aplicativo com capacidade de processamento de imagens e sensores com funções diferentes para cada dedo. 

E se esse é considerado o futuro da tecnologia, o futuro dos aplicativos não fica atrás. Também chamados de 'Aplicativos de Sexto Sentido', esse app's do futuro tomariam decisões, sem nossa interferência, com base no contexto de cada usuário e seus padrões de comportamento. A identificação do perfil seria feita através dos modernos sensores e processadores já disponíveis nesses dispositivos. Por exemplo, ele poderá identificar se o usuário está em um ritmo que o fará chegar atrasado à algum compromisso. Emitirá, então, um alerta e o usuário decide se quer andar mais rápido ou não, enquanto o app avisa às pessoas do seu atraso por uma interface de voz.


Pravna Mistry é um estudante indiano do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e tem como projeto o "SixthSense", que podemos definir como sendo um computador com o qual acessamos as informações com gestos manuais. 

A famosa frase do teórico da comunicação: "O meio como extensão do homem" reflete bem a atual 'necessidade' que temos de andar sempre com o celular no bolso / mochila / mão. Um estudo realizado em 17 países mostrou que 38% das pessoas preferem esquecer a carteira ou a chave de casa do que o celular. Isso porque os aplicativos são a extensão da nossa memória*, nossas relações sociais** e também dos nossos sentidos de visão e audição***.
* Exemplo de aplicativos: Evernote, Google Agenda, ColorNote, etc. 
** Exemplo de aplicativos: Whatsapp, Facebook, Instagram, Twitter, etc. 
*** Exemplo de aplicativos: Museu do Louvre, Palco MP3, Instagram, etc. 

O filósofo traz, ainda, o conceito de Aldeia Global. Com a evolução das tecnologias de informação e comunicação, a ligação entre as pessoas romperia o espaço, fazendo com que ficássemos informados sobre o que está acontecendo 'do outro lado mundo'. Igual a uma pequena aldeia, onde todos se conhecem e qualquer acontecimento ganha uma dimensão global. 

Quando criou esse conceito, Luhan se referia, principalmente à televisão, mas podemos adaptá-lo atualmente e entender os aplicativos (principalmente, as redes sociais) como potenciadores dessa Aldeia, visto que estamos o tempo inteiro conectados através dos nosso celulares.


Nos anos 90, surge o termo Cocooning para designar uma maneira de viver longe da socialização. Hoje, o Telecocooning aponta novas tendências das pessoas se relacionarem, conviverem e consumirem de maneira encasulada, porém sem estarem, necessariamente, dentro de casa. Esse modo de vida se expande a maneira que os recursos tecnológicos (home theatres, DVDs, desktops, laptops, celulares) trazem o cinema, a comunicação interpessoal e as relações de trabalho para dentro de casa.

A antropóloga Mizuko Ito aponta o papel crescente que o celular vem assumindo entre a juventude japonesa. Ela relata casos de jovens casais que mantêm contato constante, o dia todo, graças ao acesso a diversas tecnologias móveis. Para Henry Jenkins (você vai entender mais sobre nestante), esse é um caso evidente de Telecocooning. Eles estão sempre juntos emocionalmente, mesmo não estando próximos fisicamente. Estão encasulados entre si, apesar de não estarem dentro de casa.



De acordo com a teoria dos meios como extensão do homem, o rádio e o telefone seriam extensões da nossa audição, enquanto a TV seria extensão da nossa visão (apesar de não estar representado, a TV também é extensão da nossa audição).

Ninguém tem apenas um aplicativo no celular. Até porque, cada um serve apenas para cumprir uma função específica e precisamos (e queremos, cada vez mais) realizar várias atividades ao mesmo tempo. Nossos celulares comportam, então, as mais diversas funções; algumas intrínsecas ao aparelho e outras que adquirimos quando baixamos nossos aplicativos. Objetos como rádio, calculadora, GPS e câmera fotográfica estão compactados num mesmo dispositivo. 


Henry Jenkins chama essa fusão de mídias como um dos fenômenos da Cultura da Convergência. A teoria tenta entender a nova relação do público, incentivado a procurar novas informações, com os meios de comunicação que, por sua vez, tendem a convergir para apenas um aparelho (entenda melhor nas imagens abaixo). A convergência altera a lógica pela qual a indústria midiática opera e pela qual os consumidores processam a notícia e entretenimento.

Essa é uma mutação cultural, por isso, não podemos entendê-la apenas pelo sentido da tecnologia. Para o autor, a convergência não ocorre por meio de aparelhos, mas dentro dos cérebros dos indivíduos e em suas interações sociais. As ilustrações abaixo foram retiradas do vídeo 5 Conceitos de Henry Jenkins. Vejam a relação de Jenkins com os aplicativos.


Convergência das mídias: as mídias atuais estão interagindo com as velhas de forma cada vez mais complexa, ao invés se substituí-las. Nesse processo une-se as múltiplas funções dentro dos mesmo aparelhos. O celular e seus aplicativos são uma poderosa demonstração dessa conversão.

Broadcasting / One to Many: apenas uma opção de produto (informação também é um produto) para ser consumido por usuários. Narrowcasting / Many to Many: várias opções de produtos de nicho, para contemplar as necessidades de pessoas diversas, lhes dando opções de escolha. A internet, é um exemplo de narrowcasting, contra o modelo de comunicação em massa do broadcasting.

Economia Afetiva: economia alimentada pela venda de objetos ligados a séries de TV, histórias em quadrinho, filmes, etc. O público são os fãs dessas obras. Não é uma novidade das novas tecnologias, mas vem se intensificando por causa delas. Veja o exemplo da loja online da banda O Teatro Mágico, que vende produtos com a temática da banda.

Narrativa Transmidiática: partes de um conteúdo espalhado em diversas mídias, de forma que a narrativa só se completa quando se passa por todas, como um quebra-cabeça. Pressupõe dos consumidores uma postura ativa, perseguindo os pedaços de informação e comparando suas observações com outros fãs. Esse tipo de narrativa ocorre desde a formação da cultura de massa, mas as novas tecnologias proliferam esse modelo. Podemos usar como exemplo o aplicativo de celular do filme Velozes e Furiosos 7 que faz parte das estratégias publicitários de lançamento do filme.
Spoilers: fãs que estão incessantemente em busca de novas notícias sobre seus programas favoritos, acrescentando ao que sabem, novas informações. Para Jenkins, ninguém sabe de tudo, mas pode trocar conhecimento com outras pessoas a fim de saberem mais (inteligência coletiva). Confira a lista de três aplicativos que permitem aos usuários ter todos os episódios de sua série favorita a disposição, podendo ver e rever quando quiser e comentar com outros fãs suas experiências.

Como vimos, a internet revolucionou a cultural mundial e a forma como nos relacionamos com os objetos e com o outro. Sendo assim, não podemos considerá-la apenas uma mídia (como rádio, TV e livro), "a internet é um ambiente", como diz o professor André Lemos no seu livro "Cibercultura, Tecnologia e Vida Social na Cultura Contemporânea".

Mas será que sabemos como ela realmente funciona? O vídeo abaixo é bem interessante e explica o básico desse universo onde os aplicativos estão mergulhados. Deem uma olhada!




Manuel Castells, no seu livro "Inovação, liberdade e poder na era da informação" é otimista, assim como Jenkins, em relação a democratização proporcionada pela internet. Ambos entendem que o poder do produtor e do consumidor se misturam, graças ao alto poder de interação e democratização (um dos seus grandes diferenciais!!) das novas mídias. 

A interação dos usuário com a internet pode ter várias intensidades e impactos; vai desde postar um tutorial caseiro no youtube, anotar as parte do livro que mais gosta no aplicativo Ebook Reader, até a criação de empresas startups. Muitas dessas empresas têm a tecnologia com meio de fazer seu negócio funcionar, podendo trabalhar na criação de softwares (que inclui os aplicativos) e hardwares. Isso porque elas precisam ser uma modelo de negócio que cresça rápido com baixo investimento e a internet é um ótimo caminho para baratear os custos. 

O site e aplicativo Onde Fui Roubado, por exemplo, é uma startup criada por estudantes de computação da Ufba, Márcio Vicente e Filipe Norton. O principal objetivo da plataforma é mapear os principais pontos de violência da cidade, através das denúncias de usuários que podem indicar, em anonimato, onde, quando e como foram assaltados.

É interessante notar que esse é um bom exemplo de como a teoria da Cultura da Convergência acerta quando trata da relação dos papéis de produtor e consumidor. Os criadores do Onde Fui Roubado eram, inicialmente, consumidores e tornaram-se produtores a partir do momento que criaram a plataforma que, por sua vez, dá aos seus usuários poder para serem co-produtores do conteúdo. Inclusive, sem essa interação, a ideia não daria certo.

Assim, entendemos que a internet possibilita a qualquer usuário o poder de produzir conteúdo. Porém, com as velhas mídias, era possível produzir conteúdo também. Eu podia ter um diário, escrever um livro (mesmo que não publicasse) ou me gravar cantando num gravador analógico. Porém, esses meios não possibilitavam o alcance mundial da minha produção. Através de um sistema livre composto por diversas redes, onde a informação que eu produzo circula por todas essas redes e chega a milhares de pessoas diferentes.

Rede é quando duas coisas (pessoas, computadores) funcionam juntos a partir de "acordos" estabelecidos entre as parte, de forma que ambos se entendam. A internet, por exemplo, é um conjunto de muitas redes de dispositivos com acesso a ela. Ela se utiliza do Protocolo IP (explicado no vídeo acima) para uniformizar a linguagem, facilitando a comunicação entre as partes. 

Viver em rede não é uma característica atual. Todas as sociedades se constituíram assim. Inclusive, a origem da palavra sociedade vem do latim 'societas', uma "associação amistosa com outros", ou seja, formação de uma rede. O termo "rede social" é usado incorretamente, pois todo social já pressupõe uma rede. A forma mais correta de chamarmos facebook, instagram e twitter, por exemplo, seria: site de rede social.




REFERÊNCIAS: 

Artigos e Livros 
  • http://www.dgz.org.br/jun07/Art_03.htm 
  • http://www.editoraaleph.com.br/site/media/catalog/product/f/i/file_1.pdf 
  • http://pt.scribd.com/doc/2620279/cibercultura#scribd 
  • http://pt.slideshare.net/ValdriaSouza/manuel-castells-inovao-liberdade-e-poder-na-era-da-informao

Sites
  • http://cio.com.br/tecnologia/2014/09/01/apps-contextuais-sao-o-novo-modelo-dos-aplicativos-moveis/
  • https://glossariodamidia.wordpress.com/2011/06/29/os-meios-de-comunicacao-como-extensoes-do-homem/
  • https://aboutmarshallmcluhan.wordpress.com/category/aldeia-global/
  • http://www.revistapronews.com.br/edicoes/111/mat_cocooning.html
Vídeos 
  • https://www.youtube.com/watch?v=mBsWb5TWXUQ&spfreload=1
  • https://www.youtube.com/watch?v=E4gcWJaw8aQ&feature=youtu.be
  • https://www.youtube.com/watch?v=yyY_392Tn7Q&feature=youtu.be&list=FL9lL-NgF-knFoHmRzjdFHow
  • http://zip.net/bjq5PW * (vídeo sobre tecnologias TED)
*link encurtado